Friday, August 05, 2005

"Crónicas da Cidade Eterna": ("Capítulo I:"Novo recomeço; cavaleiro e escudeiro; segundo amor; acidente; alucinação.")

O meu pai tinha visto aquele jovem numa feira, lutando para o divertimento dos outros, numa arena minúscula e lamacenta, com a populaça toda de volta, gritando e barafustando, quase entrando na bulha também, para ter a certeza que ganhava às apostas.
O jovem lutava a soldo, envergando uma modesta cota de malha com um capuz, uns quantos tamanhos acima, um pequeno escudo de madeira e uma espada curta, que por pouco não se poderia dizer que aquilo era um montante velho, quebrado ao meio, tal o estado da lâmina. Contudo, ele batia-se como um animal feroz, com uma raiva tal, que arrepiava qualquer homem bem composto. Quem o olhasse nos olhos, quase que podia ver chamas a chispar deles para fora e as pernas tremer-lhe-iam.
Não direi que o rapaz lutasse com coragem, antes parecia mais um lobo que, ferido, não teria outra alternativa senão atiçar-se em espasmos perigosos, de forma a, com um só golpe derradeiro, esventrar o seu atacante. Aliás, ele mesmo parecia terrivelmente assustado, num pânico aterrorizante, de agonia, fixando, apenas, o outro sujeito corpulento, centrando, nele, toda a sua fúria e todos os seus receios. O outro, contudo, zombava:
_ Então? Isso é tudo o que podes dar? Ah!... Anda cá, pirralho, vais levar uma sova!... E agora não tens a tua mãezinha… Vem ao pai!!...
Deu-se um choque violento com as armas dos dois, o velho corpulento rindo e zombando, o jovem silencioso, encolerizado… Outro choque… Um grito!...
_ Ah, fedelho! _ o velho guerreiro tinha sangue a escorrer-lhe do braço _ Agora é que vais ver! _ outro choque. O velho é empurrado para o meio da lama e a multidão ri. _ Filho de uma cadela! Até à morte, filho da puta!!
Os dois engalfinham-se de tal modo, como dois chacais, lutando até à morte, até que o velho aterra, de vez, no chão e o jovem salta-lhe em cima, apontando-lhe a lâmina ferrugenta, que pingava sangue, às goelas e disse:
_ E isto é pelo que chamaste à minha mãe! _ e prepara-se para desferir o golpe, os olhos do outro brilhando de medo, como dois cubos de gelo, crescendo a cada segundo…
Uma mão poderosa detém o gesto do jovem, firmando-lhe o pulso:
_ Isto não é um matadouro, filho. Levanta-te, antes que seja tarde demais. Esse aí não merece aquilo pelo qual estás prestes a abdicar. _ o jovem, contrariado, levanta-se, puxado ainda pela mão firme, que não teimava em deixar de lhe apertar o pulso.
_ Até à morte. _ disse ele, sem se voltar.
_ Guarda os actos heróicos para quando estes forem mesmo precisos. Agora vens comigo.
_ Não.
_ Olha para mim, fedelho. Não vais querer desembainhar a espada comigo, certamente?...
Aí o meu pai viu o rosto do jovem, assustado, ferido, as lágrimas abriam regos onde se alojara, antes, a lama e o sangue. Teria aberto a cabeça durante o combate, mas havia, na sua face direita uma cicatriz bem mais antiga, que havia também sulcado a sobrancelha. Era um milagre o olho ter escapado ao golpe.
O velho caco do montante que a mão do jovem, antes tão firme e decidida, segurava, cai na terra mole, e ele, por sua vez, tomba de joelhos, no chão, soluçando, como um bebé, sem forças para se suster, tremendo como se estivesse muito frio.
Nesse momento, o meu pai tira a sua própria capa e rodeia os ombros do jovem, ajudando-o a erguer-se e transportando-o para fora dali.
A multidão tinha, entretanto, dispersado em volta do incidente, silenciosamente, no meio de uma súbita bruma que se havia elevado sobre o malfadado ringue.

_ Dêem comida a este jovem e alguns cobertores para se aquecer. Deixem-no dormir perto do fogo e não o importunem. _ olhou, então para o jovem, assustado _ Não tentes fugir, tudo isto está vigiado, a não ser que te queiras bater com os meus guardas… até à morte… Eles dão a vida por mim, o que talvez seja mais nobre do que por umas simples moedas de cobre… Amanhã falo contigo.

Nessa altura, eu não seria muito mais do que um simples rebento e, destes factos, apenas sei aquilo que o meu pai me contou, apesar de saber que, desde o início, ele sempre nutriu uma grande admiração por este jovem.

Veio-se então a saber que o nome do jovem era Nair e que ele vinha de uma terra do Norte e que era filho de um lavrador. O meu pai por várias vezes tentou saber o que o tinha levado a fugir de casa, mas, sobre isso, Nair deu muito poucas pistas. Contudo, o meu pai, Dukas de Braverie, conde das terras a Oeste do Rio Rohar, suspeitava que era algo relacionado com aquela longa cicatriz, que lhe atravessava meio rosto, como uma dura cadeia montanhosa, separando o seu mundo passado do seu mundo presente.
Se há algo que me lembro de Nair é do seu ar altivo e impassível, sério e ligeiramente carrancudo. Falava muito pouco, com uma voz grossa e firme e o seu olho direito, emoldurado com a cicatriz, fazia-me arrepiar e chorar pela minha mãe, quando era mais miúdo.
Contudo, à medida que fui crescendo, fui-me apercebendo que Nair não era assim tão assustador e que, podia vê-lo pelas reacções das jovens do castelo, ele não era assim tão mal parecido não tardando para que, mais cedo ou mais tarde, também eu o admirasse, como o meu pai, e o tomasse como modelo de rectidão, lealdade e valentia a seguir.
Apesar disso, naquele dia, Nair estava mais frágil e desprotegido que um bebé e, segundo relatava o meu pai, nessa mesma noite, o pouco tempo que ele conseguiu dormir, não parava de se revolver sobre a palha, de chorar e de gritar: “Não!”
O meu pai cuidou dele como se fosse um filho e ensinou-lhe as artes da guerra, onde ele mostrou mais do que apetências. O meu pai sempre vira que ele lutava com uma ferocidade enorme e, por vezes, diria mesmo, com um ódio terrível, mas sempre me haviam dito que o melhor guerreiro é não só o que defende, mas o que mais ataca e o que mais intimida o adversário… De resto, quando comecei a aprender a trabalhar com o montante, a cavalo, o meu pai me disse que, sem dúvida, o melhor tutor seria aquele jovem que, uma vez, havia encontrado, perdido numa feira, apesar de a primeira experiência ter sido de efeitos catastróficos, com implicações imprevisíveis…
O meu pai fez de Nair um homem respeitável e de confiança, deu-lhe um futuro e uma vida de liberdade, apesar de, nem sempre, compreender muito bem o que se passava com ele. Por vezes penso que o que aconteceu, depois, também foi, em parte, culpa nossa, por sempre tentarmos ignorar os seus verdadeiros problemas, em detrimento da sua privacidade. Contudo, não vejo por que meios lhe teríamos podido extrair mais informações… Só sob tortura, talvez…
Pois o meu pai fê-lo, primeiro, seu pagem e, depois, seu escudeiro, tornando-se, assim o seu braço direito nas campanhas e nas caçadas. Contudo, acima de qualquer título, o meu pai fez de Nair seu amigo e ambos confiavam as suas vidas nas mãos do outro.

(Continua...)

"Crónicas da Cidade Eterna": (Prólogo: "Os tempos antigos; o início do périplo; Miasha e Nair; o casamento sem retorno")

Reza a lenda que, outrora, a Terra fora una, um só continente, um só mar, um só reino de bestas fantásticas e gigantescas e de deuses poderosos, que viviam em eterno festim e delícias.
Havia um deus-rei com uma data de irmãos, filhos e filhas e vassalos, os deuses-menores.
Um dia, porém, por uma data de desavenças que houve, os deuses lutaram uns contra os outros e a Terra foi despedaçada e dispersa por inúmeras terras e inúmeros mares e os deuses acabaram por demarcar os seus reinos separados, controlando-os a seu bel-prazer.
Continuou a haver um deus-rei, nos céus altos, observando todos aqueles que se tinham recusado a partir, de cima do seu trono de nuvens, juntamente com a sua corte fiel. Contudo, os outros, que cá permaneceram por baixo, arranjavam, sempre que possível, uma maneira de se escaparem ao controle do Altíssimo.
Entretanto, surgiu o homem, uma invenção de barro que ganhara vida própria e, então, o homem começa a querer explorar o mundo, pois sentia que lhe faltava qualquer coisa. Aprendeu a sobreviver.
O homem procurou, durante muito tempo, aquilo que buscava, mesmo não o conhecendo, com tal forte ímpeto que, um dia, tombou pelo chão, pés ensanguentados, cansado e derrotado e, então, descobriu a dor, as lágrimas e a solidão.
Em recompensa, foi-lhe dado o tão procurado prémio.
Quando o homem acordou, ao seu lado, ajoelhada no chão, a mais imaculada criatura que alguma vez lhe tinha sido dado a ver. A mulher. Foi aí que descobriu a sensibilidade para as coisas belas e o amor.
A mulher brilhava nos seus trajes de catassol, como se tivesse nascido um novo astro. O homem sentia necessidade de lhe comunicar a sua alegria e, como último presente, os deuses concederam-lhe a fala.
E estes foram os primeiros habitantes da Terra, desde a partida dos deuses e é deles e dos seus filhos que descendemos todos nós ao longo dos séculos passando por momentos de guerra, peste, fome e de grande tristeza, mas continuando sempre… sempre…
Assim, o Homem iniciou o seu périplo e, aos poucos, foi colonizando o mundo, enquanto se desenvolvia a si próprio e se descobria a si mesmo e ao mundo que o rodeava.
Por muito tempo, os deuses deixaram os filhos dos primeiros habitantes da Terra explorarem o seu espaço até ao dia em que os homens começam a querer tornar-se donos e senhores desse mesmo espaço, expulsando de lá os deuses, pela sua ignorância deles e pela sua tremenda curiosidade.
Então, não gostando desta intromissão, os deuses começam a dar mostras da sua existência e muito não faltou para que o Homem os temesse acima de tudo e se fechasse, de novo, em temores e trevas. Tudo aquilo que o Homem fizesse teria que ser com permissão dos deuses, desde a colheita de um campo, à ingestão da refeição, à festa, à bebida da água numa fonte. Tudo era feito com votos para que os deuses o permitissem fazer aquilo que se pretendia.
Não tardou muito para que a Humanidade se tornasse fanática e temerosa a qualquer sinal de ira dos seus superiores: uma trovoada, uma seca, o tombo de uma árvore sobre uma casa, uma peste na criação, a podridão de um celeiro, o incêndio de um campo de milho… Qualquer coisa era significado da necessidade de um qualquer sacrifício em honra aos deuses e, quanto maior era o flagelo, mais valioso era o objecto de troca, para apaziguar a ira daqueles seres intocáveis. Muitas vidas humanas em vão se ceifaram, pois os deuses nada tinham para fazer com aquelas almas penadas (muitas vezes de crianças) que tinham mais de susto do que de devoção.
Então, houve deuses que começaram a comunicar com as gentes, e deuses protectores, a quem as pessoas não temiam e a quem se voltavam em tempo de crise.
Muitos desses deuses eram deuses menores, mas também havia deuses importantes que, nesse caso, eram padroeiros, não de uma família, mas de uma cidade inteira.
Assim prosseguiu a história do mundo e, chegou mesmo a haver cruzamentos entre deuses e humanos, dos quais nasceram criaturas notáveis, talhadas para a aventura e para o perigo, os chamados heróis, que enchem, ainda, páginas e páginas de livros, com mostras das suas façanhas e da sua astúcia.
É nesta página da nossa evolução que nos devemos deter, não para relatar mais um destes contos fantásticos, mas para apresentar, sim, duas personagens que povoaram este livro e farão a sua história: Miasha e Nair.

Miasha rondava, nesta época de relativa paz, os seus treze anos e Nair seria, apenas, um pouco mais velho. Contudo, tanto um como o outro, tinham já idade suficiente para trabalhar e, mesmo, para casar e começar a pensar em constituir família.
Contudo, não estava escrito, nas suas sinas, um destino em comum, se era isso que o leitor tinha em mente. Aliás, não poderia, à partida, ser mais diferente: Miasha estava prometida a um artesão da vila, com mais vinte e cinco anos que ela, e que já se tinha casado com mais duas mulheres, tendo ambas sucumbido à peste.
Miasha aceitava este destino um tanto despreocupadamente, pois desde pequena que fora educada a sempre obedecer à vontade dos seus pais. De facto, o artesão poderia proporcionar-lhe uma vida um tanto confortável a ela e à sua família e Miasha, digamos, ainda nem sequer tinha idade nem consciência para se aperceber da prisão que lhe era imposta. Andava sempre ocupada, com o seu carrapito negro no topo da cabeça, a cuidar das flores que ajudava a mãe a vender no mercado, as unhas encardidas da terra… Nem sequer olhava para elas: desde que a deixassem ao ar livre, ela era uma pessoa feliz.
A mãe sempre teve uma pequena tristeza por aquela filha, que sempre lhe pareceu um tanto despreocupada da realidade, com a cabeça sempre vogando por outros sítios que não aquilo que estava a fazer. Além disso, Miasha tinha um pequeno defeito de nascença: nascera com um dedo a menos no pé esquerdo, o que a fazia mancar sempre, ligeiramente.
Tirando isso, Miasha era muito bela. O seu cabelo negro, quando estava desatado, mais parecia um manto de veludo ondulado sobre a sua pele morena, contrastando com os seus olhos verdes, quase amarelos e o seu sorriso alvo, fazia inveja às meninas da corte. Mas lá Miasha sabia o que devia mastigar para manter os dentes brancos…
Era muito baixinha e ligeiramente franzina, mas, também, qualquer jovem da sua idade o seria. O seu irmão mais velho, Tooh, tinha tristeza por a sua raposinha se ir casar com aquele velho sapateiro… Mas sempre pareceu que até ele se preocupava mais com isso, do que a própria Miasha, sempre envolta nos seus sonhos acordados, falando para as flores e para os pássaros que passavam.
_ Senhora Mooran! A Miasha está? _ ouve-se uma voz, do exterior da casa da família.
_ A Miasha… Vi-a há pouco… _ responde Dorian, o irmão do meio, um jovem de pele escura e bastante delgado _ Deve estar ainda a juntar as flores para o mercado!... Vou chamá-la! Miasha!! Anda lá! Toca a mexer!!!
Passado um pouco, surge a pequena figura de Miasha, com a enorme cesta de flores poisada sobre a trança negra enrolada no topo da sua cabeça. Sempre sorridente, Miasha sobe para a carroça, ajudada pelo moço, que, logo de seguida, espicaça o boi, que arranca com um gemido enfadonho.
_ Olá, Nair.
_ Já vamos atrasados, Miasha… Só espero que ainda haja um lugar na feira…
_ Olá, Nair.
_ O meu pai mata-me, se volto com isto para trás!... Vai de cinto, desta vez!...
_ Olá, Nair…
_ Olá, Miasha…
Fizeram o caminho todo em silêncio. Nair de cara séria, com os seus olhos pesando na estrada e na vara com que guiava o boi, Miasha, bem mais longe dali, focando o horizonte longínquo e maravilhando-se com os primeiros raios de sol, poisando no seu pescoço.
Chegados à feira, do outro lado do feudo, com o boi sempre a gemer o caminho todo, lá conseguiram, eles os dois, enfiar-se num canto e montar arraial.
Ficaram lá, os dois, apregoando os seus produtos, um bom bocado, regateando os preços com os clientes. Miasha aconselhando quais seriam as melhores flores para decorar um vertido de noiva e quais seriam aconselháveis para espalhar sobre a cama dos noivos, na noite de núpcias, para chamar a sorte.
Nair, de vez em quando, olhava para a jovem e perguntava-se, estupidamente, como seria o seu cabelo a flutuar na água. Depois, focava toda a sua atenção, de novo, no seu trabalho.
_ E se…
_ Como? Disseste alguma coisa? _ perguntou Nair.
_ Estupidez minha… Esquece…
_ Não, diz!...
_ Já vendi quase tudo… Tu também… Podíamos ir embora…
_ Mas o negócio está tão bem, hoje…
_ Então, vou-me embora a pé.
_ Não, não… Nem penses!! A estrada é perigosa. Não te vou deixar ir por aí sozinha! Nem pensar!!
_ E tu és capaz de me proteger? Com o quê? Com um nabo?? Ou talvez uma folha de alface? E depois levas-me a galope para casa com esse boi que já mal aguenta o seu peso? Ah!!
_ Não me gozes!!
_ Vou-me embora!!
_ Miasha!... Tooh mata-me, se te deixo sozinha!
_ Então só tens duas soluções: ou me amarras ao carro, o que não aconselho, ou então vens comigo!
_ Pelos deuses todos! Estás doida! A tua mãe bem me avisou que tu não eras bem normal…
_ E depois? Tu achas que és normal?
_ Acho que sim!…
_ Eu também acho que sim… Por isso é que acho que és estranho. Passas a vida conformado ao cinto do teu pai! Eu não!
_ O teu pai não te bate. Sorte a tua! Levar com o cinto não é nada bom. Um dia fujo daquela casa e ele nunca mais me põem a vista em cima! Só faço o que ele quer por causa da minha mãe. Mas um dia, farto-me e levo-a dali para fora!
_ E a mim? Também me levas daqui para fora?
Houve um grande silêncio. Nair contempla o céu e, depois, o horizonte, através das tendas dos outros feirantes _ uma nesga de horizonte apenas _, voltando-se de costas para Miasha. Inspira fundo e sorri para si próprio, fechado os olhos, inalando o ar fresco de uma súbita brisa perfumada pelas flores dependuradas numa corda, ao seu lado.
_ A ti, até te levava ao fim do mundo… _ sussurrou.
_ Como? _ pergunta Miasha, finalmente olhando para Nair com alguma atenção.
_ Sim! Vamos, vamos!... _ disse ele, voltando, subitamente, à realidade.
Fizeram metade do caminho, sempre em silêncio, cada um focando a sua atenção em qualquer coisa, que não fosse o outro.
Pela primeira vez, Miasha tinha reparado em Nair como um rapaz. Para ela, ele nunca passara de uma companhia necessária naqueles dias de feira, em que a mãe não a podia acompanhar. Pela primeira vez, ela tinha reparado no contraste do seu cabelo loiro e rebelde com a cor morena da sua pele e os seus lábios grossos. Os seus olhos lânguidos de um castanho-mel, profundos e tristes. Ela fechava os olhos e, saboreava, aos poucos aquela imagem. E o seu corpo jovem e esbelto, o seu porte digno e altivo…
Nair, como sempre, tinha os olhos fitos na vara e parecia insistir em não os tirar mais dali, como se estivessem presos por fios, sérios e compenetrados no movimento aleatório dela.
Chegaram a uma bifurcação na estrada e Miasha diz, quebrando o silêncio, surpreendendo o companheiro:
_ As nossas vidas são como esta estrada. Aos poucos vão-nos separando daqueles que seguem por outro caminho e que, pensamos nós, mais tarde se voltarão a encontrar connosco. Uma decisão que tomemos, muda, para sempre o nosso rumo e nós acabamos por nos tornar o produto daquilo que escolhemos. Muitas vezes, voltamos a encontrar aqueles que, em tempos, enveredaram por outros caminhos, mas isso é tão válido como conhecer uma pessoa nova, pois acabamos por nos modificar e já não encaixamos da maneira que o fazíamos antes. Aquilo que éramos passa apenas a ser uma pequena memória e temos que nos começar a preocupar é, sim, com aquilo que somos e para onde vamos a seguir… Pela esquerda, vamos para casa… Mas agora quero ir pela direita… _ Nair fita Miasha, que sorri, timidamente, compreendendo a sua incredulidade _ Ora, mas estas estradas têm sempre dois sentidos!!! Podemos sempre voltar para trás! Aliás, ainda temos tempo…
Nair, franzindo o sobrolho, pica o boi e seguem pela direita.
_ Mas o que queres fazer para aqui? _ perguntou ele.
_ É um sítio que te quero mostrar, que nunca mostrei a mais ninguém, mas que acho que devo partilhar contigo…
A ti, até te levava ao fim do mundo… recordou Nair a ele próprio. Mas tem que ser hoje?
_ Escusas de me dizer que a minha mãe bem te avisou que eu não era normal… Eu sei que não sou normal, mas não me importo, desde que não me chateiem!...
_ Quem me dera poder ser como tu… _ disse Nair, troçando _ Talvez, se fosse meio maluquinho, o meu pai não me carregasse de trabalho, como o faz… Não me digas que não tens sorte com a tua família…
_ Dizes que a minha mãe me põe a vender flores porque acha que não sei fazer mais nada, é? Deves pensar que sou demente!!!
_ Não!... Nada disso! Não leves a mal, a sério! Só, por vezes, gostava de poder ter o espírito limpo, para ver o mundo como tu vês… Infelizmente, os deuses dotaram-me com uma enorme falta de capacidade para ver as coisas belas do mundo e apreciá-las e ser feliz com a minha pobreza e a minha falsa liberdade!...
_ Ainda zombas de mim…
_ Zombar? Eu? Acredita, Miasha, o meu mundo é diferente do teu. Nós já seguimos caminhos diferentes, tu, ainda, é que não te apercebeste disso.
Após um momento se silêncio, Miasha responde, com a voz encolhida:
_ Afinal, é melhor voltarmos para casa. Ainda fica um pouco longe e convém chegarmos lá a horas…
_ Como?
_ Ainda estamos longe. Fica para outra altura, quando os nossos caminhos se resolverem a cruzar de novo.

O casamento estava cada vez mais próximo e a família de Miasha atarefava-se com os preparativos, exceptuando, talvez, a própria noiva, sempre algures entre o mundo real e o mundo da lua.
A jovem não parecia em nada preocupada com o facto de se ir casar com um sapateiro que mais tinha idade para ser seu pai, como o faria qualquer rapariga da sua idade. Isso em nada afectava, no sítio onde ela estava.
O homem com o qual os seus pais tencionavam casá-la era conhecido por Airk Gobann e, como penso já ter relatado, havia enterrado duas mulheres, mortas durante períodos em que a peste mais se fazia sentir.
Airk estava muito satisfeito com a união dele com a jovem moça, uma vez que, segundo dizia, finalmente os deuses haviam decidido a prendá-lo com uma jovem de extrema formosura e, aliás, o destino nunca lhe permitira ter um filho, para herdar a oficina.
A estes comentários, Miasha nada dizia, parecendo estar, como sempre, com a cabeça noutro lugar, os olhos fixos num qualquer local distante, a expressão silenciosa e fechada, as mãos, quietas, sobre o regaço, como se fosse uma estátua.

Nair continuou a levar a jovem e, por vezes, a mãe também, até as feiras, contudo, não falava mais do que aquilo que era necessário.
Certo dia, apareceu ele, picando o boi, com a cara cheia de marcas, como se tivesse sido cortada. Miasha, dessa vez, fora pontual, mas ele não fez a besta parar, seguindo sempre em frente, chicoteando o pobre animal, que gemia a cada passada.
Miasha ainda correu atrás dele:
_ Nair!! Onde vais?
_ Quando os nossos caminhos se cruzarem de novo, Miasha, levo-te aonde quiseres! Juro!! _ gritou ele, sem se voltar, sentado na carroça que escorregava no meio da lama, as rodas chiando, a besta zurrando, puxando, furiosa, a carripana velha, aos solavancos.
Miasha nunca mais viu Nair, desde esse dia e, no mês seguinte, casou-se com Airk, jurando-lhe toda a fidelidade e todo o seu amor. E foi aí, no altar, que deixou pender do seu pequeno rosto moreno, a sua primeira lágrima, tímida, sem que ninguém a pudesse ver.

"Crónicas da Cidade Eterna": (Introdução)

Sentei-me à escrivaninha, lápis na mão, folhas brancas. Apetecia-me riscar papel, com qualquer coisa, qualquer pensamento que me viesse à cabeça, quer fosse uma frase, um texto, uma palavra, um risco apenas… Nada.
Por vezes acontecem-me esses momentos apáticos, em que o meu cérebro se desliga e parece ficar vazio, por muito que eu o queira pôr a funcionar. De repente surge qualquer coisa. Levanto a mão, faço um “gesto criador”, detenho-me… Não era nada, outra vez, ou, então pareceu-me absurdo ao ponto de ser inconcretizável.
De vez em quando, raramente, o muro que se ergue em torno do meu pensamento cede e o “gesto criador” processa-se até ao fim e levo a cabo a tarefa que me propus, mas outras vezes sou forçada a desistir, por não surgir nada que valha a pena.
Também por vezes acho que não insisto o suficiente, falta-me a paciência e a própria vontade e, quando me empreendo em fazer algo mais sério, facilmente me farto e acabo por desistir.
Já tentei diários, mas é preciso ter um grande estômago para fazer um. Não há coisa mais desinteressante do que falarmos de nós próprios para nós próprios.
Mas, talvez o génio humano goste de se sentir protagonista em alguma coisa palpável e memorável, como um livro. Talvez goste de sentir que a sua existência foi preservada de alguma forma, talvez queira atingir a imortalidade, através das fúteis querelas do seu dia-a-dia.
Também eu gostava um pouco de poder fazer parte de algo assim, tão estupidamente ideal, mas prefiro que seja alguém a falar de mim, que não seja eu mesma.
A falar verdade, até acho que é preferível o anonimato, pois quem fala bem, também fala mal… e ninguém tem uma vida perfeita.
Por várias vezes tentei livros, mas compliquei de tal modo os enredos que acabei por sufocar as próprias personagens nas suas acções, ao ponto de as deixar num beco ser saída e desejar que uma qualquer catástrofe natural se desencadeie para acabar com aquele chorrilhar de desgraças, de uma vez por todas!
Normalmente, os projectos que crio (os poucos que têm pernas para andar) acabam por se mostrar demasiado ambiciosos para as minhas magras capacidades criativas e intelectuais. Ficam vulgarmente a meio, inacabados, à espera que alguma ideia luminosa os venha salvar do fundo da arca. Mas acho que, até hoje, não houve nenhum que tenha voltado a ver a luz do dia. Gosto de lhes chamar “os fósseis”, porque estão mortos, enterrados e esquecidos.
Bem, “esquecidos” talvez não esteja certo, porque às vezes penso que poderia ter feito deles algo de considerável qualidade e lastimo-me por não ter a determinação suficiente de os salvar de mim própria (do meu geniozinho maldoso) e acabá-los com tranquilidade.
Por vezes, tento ganhar coragem e pegar-lhes de novo, modificá-los… Mas, mal penso em ter que voltar a escrever e a reescrever partes inteiras (senão mesmo começá-los do início) sinto as forças faltar-me e sou invadida por uma enorme preguiça e aversão ao trabalho. Aliás, tenho outras coisas mais importantes para fazer: um curso de música que adoro acima de tudo…
Agora, o pouco que escrevo é nas poucas teóricas que temos e, por vezes, quase me esqueço como se escrevem as palavras.
Também desenho, mas também já o fiz mais assiduamente. Havia dias em que podia encher pastas de cartolina com desenhos meus. Agora, o pouco que desenho também é, ironicamente, nas aulas teóricas…
Continuo sem um laivo criador, em mim, continuo a não escrever nada que preste e até pode ser que volte a desistir. Nunca fui tão impaciente na busca de resultados, nunca quis obter nada tão imediatamente como neste últimos tempos. Acho que esta busca furtiva de algo que possa ser aproveitado é fruto das exigências e pressões que tenho sofrido ultimamente, no que consta ao desenvolvimento do meu trabalho na escola, bem como a sua imediata apresentação e dura apreciação.
Só sei que, apesar de não me sentir esgotada e saber que posso dar muito mais, tenho uma íntima e tímida necessidade de, por vezes, sobrepor-me ao sistema e, por um momento me desobrigar das minhas obrigações, enquanto estudante.
Por vezes só me apetece aproveitar o sol de Março, tão agradável, ou falar com um amigo, ou ir lanchar fora e desfrutar de uma tarde despreocupada.
Mas mesmo o próprio acto de me despreocupar me faz pesar a consciência, por achar que estou a perder tempo de trabalho precioso!…
Tocar um instrumento é uma ingratidão. É como uma droga, vicia mesmo! Um dia em que não pegue o violino faz-me sentir mal, como se me tivesse esquecido de algo importante, como comer, ou dormir.
O próprio facto de estar aqui a escrever me faz sentir mal, porque, se calhar, em vez de estar a tratar do meu escasso ócio, devia estar a tocar.
Será isso que me estará a toldar o pensamento? Será que é por isso que o meu “gesto criativo”, antes tão ousado e destemido, me custa agora tantas energias por eu própria já as dispensar todas, obrigando-me a divertir-me com alguma coisa que não esteja ligada com a música? Será por isso que já não consigo imaginar?
Mas a vida é assim…

Já se passaram uns dias, desde a minha primeira escrita e, penso eu, esta manhã talvez possa ter tido uma ideia para uma história, mas nada de concreto ainda.
Talvez seja altura de por mãos à obra e passar a relatar os factos.

Pensei em organizá-la numa introdução com um narrador não participante e, depois, prossegui-la, num momento bastante posterior, como a memória de alguns dos personagens intervenientes na acção.
Não me parece muito má, esta ideia e, talvez mesmo, me decida por aplicar. Gosto muito de ler um livro como se fosse uma memória aberta e, de facto, não deve haver ninguém melhor para contar uma história do que aquele que a viveu (depois de ter passado a sensação do momento e de ter vindo falar-lhe a voz da experiência) ou, pelo menos, de alguém que a presenciou de muito perto. Aliás, tendo um narrador mais próximo da história, posso usar artifícios linguísticos (“tiques” e maneiras de falar) típicos do personagem em questão, tornando o texto mais interessante, bem como posso expressar opiniões próprias dele mesmo, em relação aos factos passados, tornando a própria história mais interessante, por não ser totalmente imparcial.
Como ainda ontem li num artigo da revista “Magazine Artes”, numa entrevista a Rosa Montero, escritora e jornalista espanhola, a notícia vive da clareza do relato, o romance vive da sua imparcialidade, dos seus dúbios significados. Dizia ela: “Quanto mais imperfeito e inacabado for o texto, mais rico se torna.”
Passemos, pois, à história em si.
Não queria uma trama de amor no centro do livro, se bem que não há maneira de lhe fugir pois tal é impossível de se lhe fugir na própria vida real. Contudo, pretendo tratá-la de um modo diferente, não quero personagens virtuosas e castas, quero personagens capazes de loucuras, sim, mas, também capazes de resignação e esquecimento, não quero seres desmesuradamente corajosos, apenas o suficiente.
Quero que eles sejam comandados por uma força exterior, quero que sejam engolidos por uma história muito superior a eles, quero que sofram com o passar dos anos e quero que se modifiquem com eles…

Quero uma trama minimamente credível mas, também, ligeiramente magicada. Não quero nada banal. Ninguém quer nada banal, como sempre, contudo, há sempre o risco…

Quero usar significados e sinais, quero, também, envolvê-la num certo misticismo, como se toda a história, apesar de não fazer muito sentido, para um romance, obedecesse a uma certa regra imposta por alguma criatura omnipresente que condicionasse as opções dos personagens e os reduzisse ao seu insignificante papel de peões num jogo do qual eles apenas vêem uma pequena parte…

Sunday, June 26, 2005

TragiCidade (Parte II: "O Jogo da Glória")

Retorno a casa. O meu ponto de partida.
Tenho uma súbita vontade de revirar gavetas de fotos cor de sépia, em busca dos rostos do passado e dos seus sorrisos. Tenho saudades da história dos meus antepassados. Da minha própria história. Encontro fotos de pessoas felizes, sentadas sobre muros ou enconstadas a carros de fronte abaulada e faróis redondos, como se vissem tudo. Aquelas roupas fora de moda e aqueles penteados armados, aquela ingenuidade de tudo, das pessoas e do meio envolvente, aquela serenidade que só com a passagem do tempo se atinge. Oh, quem me dera a mim sentir essa calma dos dias quentes e da brisa que acaricia o trigo e a alma...
Mas aquela imagem do "anjo decadente" não me saía da cabeça. Eu sentia que ele me via através das fotos, apesar de eu não o encontrar em nenhuma. Mas eu sentia que ele conseguia ver-me através dos olhos daquelas pessoas cuja juventude da fotografia se desvaneceu com o tempo. Sentia aqueles olhos escuros queimarem os meus e atirei com um envelope cheio de memórias para o chão, sentando-me, relutante, sobre a cama com os lençóis desalinhados.
Porque teria eu ficado tão obsecada com a ideia de que aquele olhar distorcido, através do prisma do copo, poisava sobre mim com tanta intensidade? Porque é que isso me incomodava e fascinava ao mesmo tempo?
A minha vida parecia enrolar-se cada vez mais sobre si própria, serpenteando ao sabor dos meus devaneios, como se fosse um jogo da glória. E a sorte aos dados ditava a minha vida que rodopiava como um carrocel, louca.
Tinha que encontrar o Miguel e fixá-lo nos olhos, para perceber se aquela loucura era dele, ou se a bebida tinha potenciado as minhas dúvidas ao longo daquela noite no Diligência. Pois eu sabia que tudo aquilo era menos do que racional. E nem poderia ser considerado como "amor à primeira vista", pois eu nem sabia o que sentia, a não ser um formigueiro que me impelia a passear pela casa, como uma barata tonta, de encontro a tudo o que se atravessasse no meu caminho.
_ Chega! _ disse eu _ Isto acaba aqui! Mas que tolice é esta? Vou-me deitar. Devo estar bêbeda ainda.
E assim fiz, já a aurora ameaçava principiar e ferir-me com a sua luz azulada. Daí que fechei as luzes e as cortinas espessas, fechei as portas e cobri-me com os cobertores até à cabeça, em absoluto silêncio. Concentrei-me no som da minha respiração abafada no meio da almofada e acabei por adormecer. De certeza que, quando acordasse, à parte da dor de cabeça, as coisas fariam mais sentido de novo.

Wednesday, June 15, 2005

"A Chave" (Parte IV: "a história de Godric ")

_ Pois esta não é uma história de ganhar ou perder... É uma história de conquistar mutuamente a confiança e a amizade de dois seres, de mundos diferentes... _ dizia Godric, com um tom apaixonado _ Tudo começou ainda éramos nós muito jovens, quando o nosso pai nos enviou para a Planície, para "caçar" o nosso cavalo e tornarmo-nos homens.
»Passámos muitos dias daquela Primavera embrulhados em capas de peles para adormecer, por entre a vegetação rasteira dos prados, ou debaixo de velhas oliveiras de tronco macio. Lembro-me de como o vento despenteava os nossos cabelos e a folhagem das árvores e do som que produzia, trazendo o cheiro de outras paragens e chicoteando o canto dos pássaros para longe.
»Certo dia, encontrámos a manada que nos tínhamos proposto a apanhar. E Rohan viu o belo macho dominante, o inteligente garanhão que conduzia a manada pelos pastos fartos, com as crinas voando livres como o vento. Um belo cavalo negro, tão grande como uma criatura das profundezas... E, nesse momento, começou o jogo entre os dois. Um jogo em que eu não participei, mas que pude assistir de perto.
»Todos os dias, de manhã, sempre que tínhamos o privilégio de, no dia anterior, nos aproximarmos da manada, acordavamos sozinhos, apenas com o cheiro trazido pelo vento à vegetação rasteira. A manada tinha partido ainda antes do nascer do Sol, guiada pelos astros e pelo instinto da besta enorme.
»Mas ele não desistia de encontrar o garanhão e dominá-lo e trazê-lo, consigo, para mostrar a todo o mundo que era homem e que estava preparado para ser rei.
»Contudo, o tempo ia passando, e não havia modo de conseguirmos aproximarmo-nos o suficiente da manada, sem que ela entrasse em alta correria pelos campos adentro, com um enorme e estrondoso ressoar de cascos e relinchos assustados, pelo que, passados dois meses, o cansaço apoderou-se das nossas mentes e do nosso corpo que necessitava de descanso, e o desânimo começou a tomar conta dos nossos espíritos.
»Então, quando muito perto estávamos de desistir de tudo e voltar para casa, apenas com a desilusão como nossa companheira, acordámos e vimos o animal, sozinho, com a crina lavada pelo vento, com o ar imponente de uma nobre criatura, com o Sol da manhã sobre as costas, fazendo o seu pelo reluzir num brilho branco, como uma luz que queima a vista, de tão clara ser.
»O meu irmão decide aproximar-se, cautelosamente, do grande animal que não mexia um músculo de hesitação e esperava-nos, calmamente, no sítio onde estava. Até que estava tão perto dele que bastava estender a mão para lhe tocar no focinho. De facto, aquele era um corcel digno de um rei. E a calma besta, quando o meu irmão lhe ía tocar, desvia a fronte e, em trote calmo, que nós conseguimos acompanhar, levou-nos até à sua manada, à sua família, como se, com a nossa persistência, nos tivéssemos, subitamente, tornado membros daquele clã...
»E vimos as éguas com os seus potros, correndo desajeitados e compreendemos o perigo que seria para aquela grande irmandade, se lhe retirássemos o líder e compreendemos que cada Rei deve permanecer no seu reino, pois tem missões a cumprir que lhe cabem exclusivamente a ele e a mais ninguém. A missão daquele cavalo era proteger a sua própria linhagem e levar os seus a bom porto, guiando-os pelas planícies, evitando os caçadores de cavalos, guindo-se pelos astros, pelo olfacto, pela visão e pelo instinto.
»Então, nesse dia, tornámo-nos homens, pois percebemos que os desejos pessoais de uma pessoa, não se devem impôr aos de uma comunidade, especialmente, se, das nossas decisões pelo desejo, resultarem coisas más e pusermos em perigo a vida dos outros. _ nesse momento, Godric olha para o irmão e para a sua companheira viperína, como se esperasse que este seu comentário fizesse qualquer tipo de efeito, ou soltasse um qualquer tipo de consciência perdida.
_ Mas esse garanhão que vós falais, não é aquele que nós vimos ainda há pouco? _ perguntou uma voz da assistência.
_ É sim! _ continuou Godric _ Pois a história não acaba aqui.
»Nós voltámos para casa, com uma nova compreensão dos deveres de cada um, para com os seus, contudo, não muito tempo depois de tudo isso ter acontecido, na feira anual, encontrámos um vendedor de latas, com um enorme cavalo de ar triste e magro. Uma sombra daquilo que havia sido um belo animal de exposição.
»O meu irmão, aproximou-se da banca, para ver o animal mais de perto. Um cavalo tristonho, de olhos baços e vergões no corpo de correias duras que feriam o corpo e o orgulho, daquilo que havia sido uma pelagem brilhante e macia.
»Ao sentir um cheiro familiar, o cavalo levanta a cabeça descaída, suportanto o seu peso com o pescoço magro, a crina cinzenta pesando sobre o lombo e os olhos. Mas, subitamente, a presença do meu irmão suscitou-lhe alguma memória alegre, dos tempos de liberdade, pelo que o cavalo se agitou e lançou um pequeno relincho, o que desagradou ao comerciante, que preparava já uma corda para bater no animal, que assustava a clientela.
»Sei dizer nada, o meu irmão desatou a correia que prendia o animal, pois eles tinham-se reconhecido mutuamente, e tirou-o dali, enquanto eu agarrava o homem furioso. O meu irmão mostra-lhe o brazão real e, sem escolha, o homem relaxa os músculos e retira-se para a sua insignificância, sem levantar mais a vista, quer para o meu irmão, quer para o cavalo que mancava lentamente, arrastando-se, contudo, com alegria dali para fora, agitando a cauda e readquirindo o brilho dos olhos.
»E assim foi. Cuidámos dele e reabilitámo-lo e, sobretudo, devolvemos-lhe a alegria de viver. Durante esse tempo todo, deixámo-lo numa cerca, sem arreios nenhuns e, jamais, durante esse tempo, alguém tentou montá-lo.
»Quando o vimos com as energias de volta, só faltava uma coisa que ía partir o coração ao meu irmão, mas que ele tinha que fazer: soltar o animal nas planícies; levá-lo para casa, para os seus.
»E assim fizémos. Saímos das muralhas da cidade, em direcção às planícies e lá procurámos a sua manada, para aí o largarmos. E lá encontrámos a manada, mas o macho dominante era outro, já. Os potros já não eram dele, mas de outro cavalo mais jovem. Um filho seu, provavelmente. A linhagem estava a seguir o seu curso e o garanhão negro queria deixar que as coisas assim continuassem, pois, quando voltámos as costas para a manada, ele voltou-as connosco e seguiu-nos, alegremente, até ao castelo, sem que nós, sequer, lhe tivéssemos tocado uma vez. Nós éramos a sua nova família.

"A Chave" (Parte III: "a chegada do Rei")

No castelo, a vida ia decorrendo normalmente. Irvan continuava com as lições sobre o peso e o equilíbro que o cavaleiro tinha que ter com o montante a Padriac, que, continuava a preferir os malabarismos das armas mais curtas. Meeka mantinha-se fechado nos seus aposentos, rodeado de livros sobre temas que em não contava dominar.
Recebemos, pois, uma carta do rei, passadas umas semanas, que anunciavam a sua chegada para breve, alterando, por completo, o temperamento das pessoas que me rodeavam, inclusivamente, a temperança de mim própria...
O equilíbro feliz e despreocupado em que vivíamos, daquele final de Verão, foi destruído, como um baralho de cartas empilhado ao vento, e toda a gente vivia em função de uma "azáfama carpinteira", que nos fazia correr de um lado para o outro, mesmo quando não havia nada de especial para fazer, que não fosse continuar com os ciclos da nossa vida.
Pois que não chega a véspera do dia da chegada do nosso bem amado e temerário rei Rohan, que, até ao momento, não tinha ainda explicado os motivos da sua vinda ao nosso pequeno território, algures encravado, como uma pedra preciosa de um anel, entre as falésias e entre uma sercadura de floresta, que levava, após uma semana de caminho, até às montanhas...
Pois que ninguém sabia as razões da visita de Sua Alteza à língua final dos territórios que constituem a Planície dos Cavalos, território dividido por inúmeros duques e condes menores, quase todos primos uns dos outros...
Mooran, a nossa parteira, muito velha, que morava fora das muralhas de fortaleza do nosso castelo, à esntrada da floresta, advertiu-me para o grande mal que rodeava o Rei e que ele traria consigo, para o nosso seio. As suas palavras e o seu olhar congelaram-me o sangue nos pulmões, como um sopro gelado da alma. Coisas muito tristes iriam acontecer...
Na véspera, pois, do dia da chegada de Rohan até Langrin, o alvoroço aprimora-se em complicações, em moços de estrebaria empilhados em escadas altas, de modo a dependurar as reais cores da nossa família, que tinham estado a ser renovadas pela criadagem. As cozinheiras apressavam-se em depenar galinhas com água a ferver e em cozê-las, para acompanhar com bolotas, castanhas e mel, juntamente com um grande porco assado, que se tinha morto havia uma semana, para depois se lhe aproveitar as entranhas e a pele, para depois ser salgado e curtido.
Eu entretinha-me com um trabalho leve... Arranjar as flores para espalhar sobre a mesa e alisar a palha, junto da lareira, enquanto me ia entretendo com uns quantos bordados para uma velha toalha de linho branco que nós tínhamos e que tinha servido, intacta, desde o casamento dos meus pais.
Padriac e Meeka estavam desaparecidos daquela confusão, enquanto Irvan inspeccionava todos os passos, com minuciosa atenção e interesse, dando uma mão nos trabalhos pesados.

No dia seguinte, como sempre imaginara, pela alvorada, ouvi as trombetas douradas do Rei, que se aproximava do Norte. Ao princípio, apenas um ponto vermelho no horizonte, depois, uma fileira de hastes com estandartes vermelhos e doirados, que brilhavam ao sol, depois, toda uma coluna organizada, de homens em cima de cavalos e duas liteiras, carregadas aos ombros de homens fortes, reluzindo de suor, por debaixo das vestes da cor do brazão real.
Ao lado do Rei, viajava uma alva criatura, de vestes brancas e esvoaçantes, de ceda e cetim, cabelos vermelhos, da cor do brazão, montada num cavalo igualmente alvo e esguio, de contraste com a besta negra que Sua Alteza montava, um cavalo de tamanho gigante, com um dorso que mais parecia um barril enorme de hidro-mel, de cabeça livre e solta, de crina larga e brilhante, como uma lança. Nunca tinha visto um animal assim na minha vida... Tinha proporções gigantescas!
Os portões do castelo abrem-se, para a real recepção, com aplausos e pétalas de rosa a pairar sobre as cabeças dos chegados que, à entrada do salão nobre, perto das escadas, desmontam dos seus animais cansados, que desaparecem sob o conforto do estábulo e do cheiro a feno e aveia, preparados pelos diligentes moços de estrebaria.
O cavalo negro continuava a fascinar-me, pois nunca tinha visto um garanhão assim, de olhos tão negros e fulminantes, que parecia ser um próprio espírito da Natureza... Contudo, a minha alegria não era completa, por causa das previsões holocausticas de Mooran, sobre o grande mal que acompanhava o Rei... E eu vi-o a seu lado, sobre o corcel branco. A alva mulher de grossa cabeleira de fogo infernal e olhos negros como o ébano. Era ela... E ela olhou para mim, como se me conhecesse e como se soubesse quem eu era... O seu nome era Shiraz, de língua viperina, como eu gostava de chamar...
Das duas liteiras, saiem duas jovens loiras, iguais uma à outra, como se fossem o seu próprio reflexo. Gémeas. Yumina e Yanina eram os seus nomes. Cada uma mais ingénua que a outra.
A acompanharem-nas, vinha um jovem, de cabeleira doirada como as irmãs e como o próprio Rei. Godric era o seu nome e, deixando que cada uma entrelaçasse o seu braço em torno do seu cotovelo, entrou pela sala dentro, como um raio de sol proeminente.
Rohan, por sua vez, parecia um reflexo pálido, apenas, dessa chama tão brilhante, dos seus três irmãos. Tinha os olhos baços e Shiraz parecia não o largar nunca, como se o mantivesse sob uma espécie qualquer de feitiço venenoso...
Tudo me parecia bastante claro nessa altura. Mas nem sempre as coisas são tão fáceis como pensamos... infelizmente.
O resto do dia foi de grande festa e alegria. Todos se estavam a divertir e a embriagar, e os saltimbancos e os jograis divertiam os demais que ainda se mantinham sóbrios o suficiente, para não se rirem tanto, até que o véu da noite começa a tombar sobre o dia glorisos e quente daquela tarde de Verão, e o zumbido das abelhas foi substituído pelo canto dos grilos, e a frescura da brisa refrescou os corações que aqueceram demasiado... e as cabeças também...
E todos estavam mais calmos quando Godric decide contar a história que explica como o Rei ganhou, para si, o fantástico garanhão, sentados em torno de um pequeno fogo, só para iluminar a sala, sobre a palha que eu tinha espalhado, e os bancos que se tinham mudado para ali.
_ Pois esta não é uma história de ganhar ou perder... É uma história de conquistar mutuamente a confiança e a amizade de dois seres, de mundos diferentes... _ dizia o irmão mais novo do Rei, com um fervor sumptuoso, as faces coradas e alegres do vinho e da cerveja quente, como se fossem um farol encarnado, sobre o brilho alvo que o cabelo tinha, sob a influência quente da lareira.
A sua imagem captou, nesse instante, a minha atenção, que me fez estar atenta aos pormenores que o tornavam num homem de carácter... a sua fisiologia robusta mas proporcionada... a beleza das suas mãos angulosas, o encanto dos seus olhos cor de âmbar... o seu sorriso generoso e cordial... A sua narrativa apaixonada cativou todos os presentes, naquela noite de brisa fresca, mas de calor humano, como se tudo estivesse, de novo, em equilíbrio, à excepção do estranho casal: o Rei e a sua companheira de magra fisionomia, que, contudo, parecia atrair, sobre si, o interesse dos homens da sala.

Sunday, June 12, 2005

"A Chave" (Parte II: "De como surgiu a chave no castelo de Iskaë, de como a guardou")

"Eu e o Mar. Sempre senti que nós estávamos perto, quando tudo o mais parecia longe. Ainda me lembro de ser pequena e de me aninhar, como uma pequena coruja, no meio das escarpas voltadas para o mar, muito nos limites das terras do meu pai, com as planícies e os campos de cultivo nas minhas costas. Só eu e o Mar, e a voz das Sereias, lá ao longe, como se chamassem por mim.
Sempre que desaparecia, os meus irmãos sabiam onde me buscar. Os meus bons irmãos, que encobriam sempre as minhas asneiras e as minhas tolices.
Irvan, o mais velho, treinava arduamente as artes da cavalaria e seguia, com o interesse esperado de um futuro duque, os assuntos das terras do meu pai, seguindo-o para onde quer que fosse e tomando parte activa nas reuniões. Os seus cabelos negros, ora soltos ora entrançados, caíam sobre os ombros como pergaminho, da sua cara morena e séria sobressaíam aqueles olhos escuros, que faiscavam, como se tivessem já uma sabedoria superior.
O seu tronco encorpado, parecia o deu uma árvore centenária, e era sob ele que eu me colocava, quando tinha medo de alguma coisa, para receber a carícia da sua mão calejada e generosa.
Padriac, o meu irmão do meio, tal como Irvan, era belo, mas era mais semelhante a uma estátua meio pálida, mais magro e frágil, mas não menos ágil, pois corria como um gamo e era muito bom nas lutas corpo-a-corpo. Tinha os mesmos olhos azuis que eu tenho, que herdámos da nossa mãe, olhos azuis escuros, da cor do fundo do mar, da cor da terra das Sereias...
O seu rosto sardento, contudo, fazia-o parecer mais novo que o meu terceiro irmão, Meeka, o mais frágil deles todos, contudo, o mais sábio... Mas Padriac, eu sabia-o, tinha que o dividir com muitas outras raparigas do castelo, pelas quais ele se tinha que desdobrar em atenções e em vénias, pois ninguém lhe passava indiferente. Padriac era o meu irmão cortesão, polido e educado, e belo, também...
Meeka, tinha olhos grandes, de quem sabia tudo, ou de quem estava muito próximo de saber tudo. Havia nele uma certa loucura que eu gostava, pois era com ele que eu fugia para as enseadas, era ele que me ajudava a aninhar no meio das escarpas e era ele que me puxava de volta para cima, daquela imensa parede de farpas de pedra, voltadas para o mar.
Era com ele que eu ficava ali, sentada, e foi ele que me contou a lenda da nossa mãe... A nossa mãe Sereia, que, quando morreu, foi baixada numa cesta cheia de flores até ao mar, e de como essa cesta voltou para cima vazia, sem nada à excepção de um colar com um búzio, que, segundo rezam as pessoas que a vestiram, não estava com ela...
A minha mãe, segundo dizem os que se podem lembrar, era a mais bela mulher de todo o reino, Pois ela era uma Sereia que tinha saído do mar, com o intuito de fazer cumprir uma profecia: "e virá uma criatura marinha, a mais bela de todas, para fazer crescer quatro crianças na terra... os filhos do mar... contudo, apenas um deles conseguirá atravessar o Grande Rio, sem cair em tentação, e todos os que seguirem esse filho da Sereia estarão a salvo, pois esse filho trará consigo o filho da montanha, que será sacrificado às gentes marinhas..."
Contudo, quem pensa que ela não amou o meu pai, está muito enganado. Quando Mooran fez esta previsão, foi pouco antes de eu ter nascido, e a minha mãe não lhe quis crer, pois nunca tivera memória de viver no mundo subaquático. Contudo, foi perdida no meio da praia que ela foi encontrada, vagueando, sem nada conhecer, sem nada recordar de como parara ali.
O meu pai diz que eu lhe mato as saudades que ele tem dela. Pois, à parte de profecias, o que aconteceu entre eles, foi muito belo.
Contudo, todos dizem que eu sou uma réplica da minha mãe, por causa dos meus cabelos negros, da minha pele branca, dos meus olhos azuis escuros, que mudam de cor assim como muda a cor da água do oceano e do facto de eu ser muito pequena e magra. Tal como a minha mãe teria sido, quando teria a minha idade, apesar de nunca ninguém a ter conhecido nessa altura.
Infelizmente, eu nunca a conheci, pois ela, tragicamente, morreu de parto. A única coisa que me liga a ela é o pequeno búzio, que encosto ao ouvido, sempre que me sinto só, como se ouvisse, dou outro lado, a sua voz serena e pura...
Gostava de a ter conhecido...
Certo dia, ainda antes da alvorada, sinto, no piso térreo, os cães, que dormiam junto das brasas ainda quentes da lareira, sobre os seus fardos de palha, ladrar que nem uns loucos. Todos nos levantamos e o meu pai manda colocar a guarda em alerta, para averiguar a situação. Falso alarme. Voltámos para os nossos aposentos. Contudo, eu, ao entrar no meu quarto, sou agarrada por umas mãos que me são totalmente estranhas e que estão geladas. Tento gritar, mas elas cobrem-me a boca. E esperneio, na tentativa frustrada de me libertar, contudo, uma voz de um homem jovem, fala ao meu ouvido:
_ Senhora, vou largar-vos, mas não gritai, ou matam-me! Tenho uma coisa para si, que preciso que guarde com todo o cuidado e sigilo. _ eu aceno afirmativamente e ele, depois de ponderar se eu não o estava a enganar, finalmente liberta-me.
_ Que queries? Quem sois? Porque me atacastes?? _ perguntei eu, recuperando o fôlego.
_ Não vos posso dizer o meu nome, senhora _ reparei que o homem estava emcapuçado _ apenas que tenho isto para vós e que preciso que o guardeis com a vossa vida.
_ Mas o que é isso?
_ É uma chave.
_ Uma chave para quê?
_ Não façais perguntas, senhora, _ diz o homem encapuçado _ sei que sois uma pessoa honrada, sois filha da Sereia e a mais ninguém eu posso confiar isto. Apenas a vós.
_ E porque não aos meus irmãos?
_ Eles são senhores da guerra. Isso eu não posso fazer, pois esta chave tem que ser mantida longe deles...
_ Estou a ver que ela é muito importante... E quereis que minta aos meus familiares, escondendo um objecto dessa importância, trazido por um invasor dos meus aposentos? O que não irão pensar de mim?
_ Ninguém pensará nada, pois ninguém precisa de saber. O que vós terieis que saber é que tendes que proteger essa chave com a vossa vida, e manter isso segredo, pois, se não o fizerdes, tenho ordens para vos matar.
_ Matar-me? A mim? _ disse eu, em pânico, considerando a hipótese de gritar por ajuda... mas ele mata-me logo, se eu o fizer...
E mais ele não disse. Apressou-se a saltar da janela, para se agarrar a umas trepadeiras e, daí, sentar-se no lombo de um cavalo cinzento, da cor do nevoeiro espesso que ainda levaria tempo a evaporar. A chave estava jogada no chão, a um canto, e eu peguei nela e guardei-a comigo, atando ao pescoço aquela presilha em forma de ferradura com um cordel, encostando-a ao meu peito, por debaixo do meu vestido, em contacto com a minha pele.
E não mais falei do assunto."

Conto I: "Numa selva distante..."

Estavam perdidos na selva, fazia dois dias. Sem água, nem comida. O rádio destruído impedia-os de chamar por ajuda e os mapas topográficos tinham sido destruídos juntamente com o resto do aparelho voador.
Era assim mesmo, no meio da guerra. Os esquecidos ficam sempre para trás... Os desaparecidos em combate, desaparecidos inclusivamente deles próprios, desaparecidos do mundo, no mundo.
A nave inimiga não devia ter caído longe e, caso eles tivessem sobrevivido à queda, haveria razões ainda maiores de preocupação. Se a fome não os matasse, talvez os humanos o fizessem. E os Schawts tinham medo dos humanos, muito medo...
Assim, decidiram seguir em viagem, talvez encontrar um lago com animais para comer, sempre em linha recta, para não correrem o risco de andar em círculos e não perderem tempo a buscar aquilo que precisavam em lugares onde sabiam que já não valia a pena procurar. Talvez até encontrassem um meio de fugir dali, quem sabe?
Então tomaram a direcção oposta à da queda da nave terreste, e seguiram, sem mais peso do que a roupa que tinham, pois mais nada tinha sobrado da queda (nem uma arma para se defenderem) e puseram os seus membros a caminho.
Seguiram a direcção das duas luas, pois lembravam-se que havia uma aldeia para aqueles lados, contudo, a latitude a que eles estavam, podia ser totalmente diferente da da aldeia, pelo que poderiam passar quilómetros ao lado dela, sem a verem... Mas era um risco que tinham que correr.
Mortos de fome e de sede, os dois pilotos Schawts sentam-se, enroscados nas raízes de uma árvore centenária, e procuram arranjar qualquer coisa que cubra o seu corpo, para os proteger do frio da noite. E assim ficaram... e não voltaram a acordar mais.
Os humanos mataram-os no sono e devoraram-nos, como aves necrófagas, que sentem à distância o cheiro das presas meio moribundas... E seguiram caminho, como se nada fosse, comprovando que a guerra não é o pior dos males, mas, sim, a crueldade humana para os que lhe são diferentes, mesmo quando os motivos da guerra já não importam...

"A Chave" (Parte I: "O aparecimento do Mundo e a Linhagem dos Reis Homens")

E o mundo pertencia aos deuses, criaturas máximas em força, sabedoria e beleza. E os deuses eram muitos, mas, entre eles, reinava a discórdia entre dois irmãos, que lutavam pela posse da Chave de Zaar, e iniciou-se uma grande guerra entre os gigantes, que acabou em grande desgraça, pois houve muitas mortes de ambas as partes.
A Chave foi perdida, no meio das lutas, roubada pelos anões, que se refugiram nas montanhas e nunca mais se soube deles.
Então o mundo foi quebrado em dois, separado ao meio por um rio tão grande como um Oceano, guardado por ninfas da água, meio peixe, meio mulheres, que impediam os aventureiros de o atravasserem sem morrer pela tentativa.
E os dois irmãos reinavam tiranicamente, cada um do seu lado, até que Ronar, o irmão mais novo, decidiu criar a raça dos homens, que se alastrou como uma peste de criaturas que para os deuses eram deformadas e pequenas, e apenas serviam para servir.
Até ao dia em que nasceu Zonan, o primeiro rei humano, que, durante o sono, mata Ronar e inicia uma rebelião, que leva à extinção dos deuses, pois os homens eram muitos e apanharam todos desprevenidos.
E Zonan tomou para si as terras de Belbabë, lançando-se na busca da Chave, aquela que abria os portões da grande Biblioteca da Cidade Voadora.
Zonan morreu, não sem deixar no mundo sete filhos que, por sua vez, se multiplicaram, até à 14ª geração, onde começa a nossa história, altura em que o Mundo já está muito mudado.
A sua linhagem foi:
Crain, o Gigante - Obidon, o Velho - Grevion, o Sanguinário - Toren, o Sábio - Crain II, o Religioso - Greymor, o Astucioso - Diarmid, o Belo - Tureen, o Cavaleiro - Dorian, o Pacífico - Airk, o Montanhês - Toron, o Caçador - Corin, o Archeiro - Cohan, o Juíz - Rohan, o Tempestuoso.

(Esta história desenrola-se durante o reinado de Rohan, momento em que a terra de Belbabë se encontra em grande agitação, por questões relacionadas com o Povo das Montanhas e da eminente invasão de um primo do Rei, chamado de Cordain, o Sombra, senhor das Terras Finais e pelo súbito aparecimento, num castelo das Planícies dos Cavalos de um estranho artefacto... Uma chave.)

e-M@il

Só queria anunciar que o e-mail do "Realidades Subversivas" já funciona em pleno.
Fico à espera das vossas "realidades". As melhores (bem, quem sou eu para julgar, mas pronto...) serão publicadas no site.
Mais uma vez, apelo à vossa falta de pudor...

realidadessubversivas@yahoo.co.uk

"TragiCidade" (Parte I: "O Arcanjo")

Miguel parecia meio apático, nesse dia. Quando nos conhecemos, lá no Diligência, em Coimbra.
O seu cabelo caía em cascata sobre os olhos negros, como se fosse cordéis de um castanho que, sob a iluminação esparça do bar, mais parecia um vermelho louco, infernal.
Mas a sua cara, mais parecia, a cara de uma pessoa cujo o sangue fora sugado, de um branco de porcelana de uma qualquer criatura angelical. Aquelas feições recortadas, o maxilar forte e o nariz que sobressaía como uma lança.
Brincava com o copo, o Miguel, enquanto eu e o António punhamos a conversa em dia, porque já não nos víamos fazia muito tempo. Mal sabia eu que ali, o meu futuro mais próximo estava a ser delineado, por uma força atractiva que eu ainda não sentia, mas que iria sentir não tardava muito. Pois Miguel era muito belo e eu era muito tonta.
Foi então que começámos a falar, e eu soube, nesse momento, que Miguel era um trágico, a sua vida absorvia energia de toda a tristeza que ele se fazia rodear, ou, melhor, de toda a tristeza pela qual queria ser rodeado. Porque ele era um escritor...
Foi, pois, nessa noite, que eu comecei a perceber a influência que o olhar dele exercia sobre mim. Uma espécie de olhar triste e manso mas, ao mesmo tempo, fulminante e sedutor. Aqueles olhos negros que passevam sobre o copo e sobre mim, e sobre o copo outra vez, desinteressados de tudo e de todos, mas, ao mesmo tempo, observadores, como se só vissem verdade.
A partir desse momento, senti um súbito interesse em falar mais com ele, apesar de, ao princípio, pouco mais ter arrancado do que monossílabos. (O trabalho de um escritor é escrever, não é falar...) Mas, quando passei a conhecê-lo melhor, acabei por me tornar sua fã incondicional, especialmente por sentir que, por detrás daquela capa toda de formalismo, se escondia um ser sensível e tão ou mais interessante que a sua imagem misteriosa. Especialmente pelo facto de eu sentir que lhe faltava um certo toque e preocupações femininas de outra pessoa por ele. Porque ele me parecia muito só na sua tristeza.
Aquele modo de viver subterrâneo, meio decadente, ao geito parisiense dos cabarés era como para mim, um novo universo, que me atraía pela escuridão e pelo calor pecaminoso do fogo... e aquele desdém, de quem é totalmente incapaz de atribuir valor, seja ao que for, era algo que me embrenhava em considerações e em sonhos completamente macabros, de risos e dentadas.
O Miguel parecia saído desses jardins suspensos, de outro planeta... E parecia desajustado aqui. E eu adorava essa influência "cigana" que ele exercia em mim, com aquele olhar grande e penetrante, como se os seus olhos fossem dois poços sem fundo, em que eu me quisesse jogar...
A partir desse momento, ele tinha conseguido a minha atenção. Pelo menos, ele era diferente...

Bem vindos às Realidades Subversivas (whatever that is...)

Ora muito bem vindos! Espero que se divirtam com este blog, dedicado a realidades imaginárias. Fica desde já o convite a participarem activamente com as vossas ideias, na tentativa de se criar um mundo completamente diferente do nosso, em jeito de crónica.
Isto tudo porque sempre me seduziram as histórias de outros planetas...
Espero que se divirtam com as histórias e, se quiserem, enviem as vossas próprias propostas fictícias para o mail que, em breve, espero anunciar.
Porque este é um espaço virtual... fictício... subversivo...
Não se acanhem e sejam bem-vindos...

(Se quiserem incluir um pouquinho de realidade, não se acanhem, também. Afinal, não é a partir da realidade que partimos para o imaginário?)